PRODUZA MAIS COM MENOS

A vida moderna é um equívoco. Não estou me referindo ao maravilhoso progresso nas áreas de ciência e tecnologia e no mundo empresarial, pois isso nos tem permitido comer melhor, rejuvenescer, viver mais, debelar doenças, viajar com facilidade e dispor de maior conforto do que no passado.

O que é um erro é o modo como organizamos nossa vida pessoal e social. Em vez de trabalharmos para viver, vivemos para trabalhar. Se tivéssemos mais autoconfiança e seguíssemos a filosofia certa, alcançaríamos mais objetivos do que agora e curtiríamos mais nossa atividade profissional — ainda que trabalhando muito menos horas e dedicando uma parte maior da energia para a família e a vida social.

Isso seria uma mudança importante na maneira como vivemos. Hoje, o progresso corre às avessas. Antes, adotávamos um ritmo mais relaxado, tínhamos mais tempo livre, o compromisso com a família e os amigos era maior, havia mais igualdade e fraternidade social e também mais civilidade com os estranhos. Além disso, o estresse e a depressão eram menos freqüentes, não existia tanta dependência do álcool e das drogas nem de dinheiro e poder. Agora, temos mais consciência de nós mesmos e da nossa individualidade, porém muitas pessoas estão aterrorizadas com a nova liberdade. Vivemos muito mais preocupados em meio a uma busca desesperada pela ilusão de segurança, que, apesar do nosso esforço frenético, se torna cada vez mais distante.

A vida hoje em dia se divide em pista rápida e pista lenta. Ambas são menos agradáveis do que a pista ampla do passado. Para muitos, a pista lenta corresponde à insegurança financeira: ganhos insuficientes, situação social insatisfatória, medo do desemprego e privação das crescentes comodidades materiais acessíveis apenas aos que estão na outra pista. Mas a pista rápida tabém tem seus riscos. Para um grande número de pessoas, ela significa uma obsessão única em avançar, um compromisso total com o trabalho à custa das relações pessoais, além de um estilo de vida frenético em que a atividade profissional se sobrepõe a todo o resto. A pista rápida também causa ansiedade e pobreza, embora seja pobreza de tempo e amor, e não de dinheiro.

Caso essa análise de vantagens materiais e desvantagens pessoais da vida moderna leve você a refletir, tenho uma grande notícia. Se aceitarmos que a vida moderna funciona nos níveis material, científico e tecnológico, mas freqüentemente prejudica nossa vida pessoal, posso declarar que há uma nova saída para esse impasse.

Refiro-me ao Príncipio 80/20, a observação de que, em geral, 80% dos resultados se originam de 20% ou menos das causas. Mais adiante explicarei como esse preceito funciona e darei alguns exemplos de sua utilização. No momento, porém, direi apenas que, embora o Princípio 80/20 tenha sido usado com êxito nas empresas e na economia, proporcionando progresso ao mundo moderno, ele ainda não foi aplicado, na mesma escala, à vida das pessoas. Se isso acontecesse, poderíamos aproveitar muito mais os nossos dias, trabalhar menos e alcançar mais objetivos.

“Que vida é essa se, com tanto a fazer,
não temos tempo de
parar e contemplar”.
— William Henry Davies

Agora você conhecerá um pouco deste princípio, que é uma das descobertas mais revolucionárias, surpreendentes e abrangentes dos últimos 200 anos.

Se usássemos 100 pessoas para formar uma equipe de 80 integrantes e outra de 20, seria de se esperar que a de 80 reailzasse quatro vezes mais. E, se escolhêssemos as pessoas ao acaso, algo semelhante provavelmente aconteceria.

Contudo, imagine um mundo esquisito
onde as 20 pessoas obtêm
mais resultados
do que as outras 80.

Faça o mundo esquisito ficar mais estranho. Suponha que as 20 pessoas não apenas obtêm mais resultados do que as 80, mas que alcançam quatro vezes mais. Isso contraria totalmente a expectativa. Era de se esperar que os 80 indivíduos conseguissem um resultado quatro vezes maior do que os outros 20. No entanto, nesse mundo curioso e invertido, imaginamos o oposto: as 20 pessoas é que conquistam o resultado quatro vezes maior.

Impossível? Improvável? De fato, esse mundo esquisito, embora não inconcebível, deve ser raro.

Mas se um dia descobríssemos que, longe de ser incomum, o mundo esquisito fosse, na verdade, corriqueiro, isto é, que o mundo quase sempre se divide em poucas influências muito poderosas e uma massa de outras sem a mínima importância. Será que isso transformaria toda a nossa visão?

É o que acontece quando entendemos o Princípio 80/20.

Descobrimos que os 20% principais de quaisquer causas que possamos medir – como pessoas, forças naturais, dados econômicos – conduzem habitualmente a cerca de 80% dos resultados, conseqüências ou efeitos.

O poder do Princípio 80/20 é o fato de que ele contraria a intuição, ou seja, não mostra o que esperamos. A impressão é que somos programados – talvez pela cultura liberal ou por um inato senso de justiça. Veja alguns exemplos:

  • Cinco pessoas se reúnem para jogar cartas. É provável que uma delas – 20% – ganhe pelo menos 80% das vezes.
  • Em qualquer grande loja de varejo, 20% dos vendedores ganharão mais de 80% de cada real vendido.
  • Estudos mostram que 20% dos clientes respondem por mais de 80% dos lucros de qualquer negócio. Um grande banco brasileiro, calculou o lucro que cada um de seus clientes gera. Foi espantoso saber que 17% deles proporcionavam 93% dos lucros.
  • Menos de 20% das celebridades dominam mais de 80% da mídia, enquanto mais de 80% dos livros vendidos são de 20% dos autores.
  • Mais de 80% das descobertas científicas são realizadas por 20% dos cientistas. Em cada época, são uns poucos especialistas célebres que fazem a maioria delas.
  • As estatísticas de crimes mostram com regularidade que cerca de 20% dos ladrões fogem com 80% do que encontram.

Observe que o Princípio 80/20 é mera representação simbólica de uma relação muito desproporcional entre causas e efeitos. Não é necessário que a soma dos números seja 100. Alguns casos podem conter uma relação 70/20: 20% de causas leva a 70% dos resultados. Essa divisão também pode ser 80/10, 90/10 e até 99/1.

Com freqüência encontramos um quadro até mais extremo do que o da relação 80/20, em que muito menos do que 20% das causas – em alguns casos até 1% ou menos – produzem pelo menos 80% dos resultados. Veja a seguir alguns exemplos muito esquisitos.

  • A Betfair, a principal “bolsa de apostas” do mundo, em que as pessoas apostam entre si, diz que 90% do dinheiro movimentado ali vem de 10% dos clientes.
  • Na Indonésia, os residentes chineses totalizavam menos de 3% da população, mas eram donos de 70% da riqueza do país. Da mesma forma, os chineses correspondem apenas a 1/3 da população da Malásia, embora as famílias francesas representem somente 5% da população, elas detêm 90% da riqueza local.
  • Dos 6.700 idiomas, 100 deles – que correspondem ao grupo principal de 1,5% – são usados por 90% da população mundial.
  • Numa experiência, o psicólogo Stanley Milgram escolheu ao acaso 160 cidadãos de Omaha, Nebraska, e lhes pediu que enviassem um pacote para um corretor de valores de Boston-EUA, mas não diretamente. Primeiro, tinham que mandar o pacote a alguém que conhecessem pessoalmente. Esse indivíduo encaminharia então a encomenda a um de seus contatos pessoais que pudesse conhecer alguém que conhecesse uma pessoa com acesso ao corretor, e assim por diante. A maioria dos pacotes passou no máximo por seis etapas até chegar ao destino, o que estabeleceu a idéia dos “seis graus de separação” (treinamento a ser lançado em agosto de 2012 por Marcelo Scarpitta). O fundamental para nós, no entanto, é que mais da metade dos pacotes entregues ao corretor foi mandada por apenas três indivíduos bem relacionados de Boston. Essas pessoas foram mais importantes para obtenção do resultado desejado do que todos os outros habitantes da cidade.
  • As epidemias são causadas por uma quantidade ínfima de casos que produz um efeito totalmente desproporcional em relação ao seu número.
  • Os americanos representam menos de 5% da população mundial, mas consomem 50% da cocaína do planeta.
  • Bem mais do que 80% da riqueza criada por novos negócios é gerada por menos de 20% das pessoas que os iniciam. Provavelmente apenas 1% dos empreendimentos lançados nos últimos 30 anos – inclusive a Microsoft, que vale mais de USD 200 bilhões – respondem por 80% do valor que geram. Da mesmo forma, 1% dos empresários – sobretudo Bill Gates, que tem mais de USD 30 bilhões – produzem mais de 80% do dinheiro das novas empresas.
  • Arquivos históricos revelam qe os espiões da polícia na Europa sabiam da existência de milhares de “revolucionários profissionais” entre 1847 a 1917. Mesmo assim, apenas um deles – Vladimir Ilith Ulianov, mais popularmente conhecido como Lenin – deflagrou de fato uma revolução duradoura. Portanto, um revolucionário em mais de 3 mil – ou 0,03% dos revolucionários – desencadeou 100% das revoluções de sucesso entre aquelas datas. Embora esse seja um exemplo extremo, a história está cheia de casos em que um pequeno número de pessoas a desviou do seu curso.
  • Sem dúvida, os 20% das pessoas que respondem por 80% ou mais dos resultados, sejam estes últimos bons ou maus, não são escolhidos ao acaso. Esses indivíduos não são comuns. São interessantes porque produzem resultados pelo menos 10 ou 20 vezes maiores do que os gerados por outras pessoas. Como os grandes realizados não são 10 nem 20% mais inteligentes do que os outros, seus métodos e recursos é que são extraordinariamente poderosos.

O Princípio 80/20, tem aplicação ilimitada.

O Princípio 80/20 se aplica não apenas a grupos de pessoas e seus comportamentos, mas virtualmente a todos os aspectos da vida. Existe sempre uma minoria de forças muito poderosas e uma grande massa de forças sem importância. Por exemplo:

  • Vinte por cento dos países, que concentram muito menos que 20% da população mundial, consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da madeira de todo o planeta.
  • Muito menos do que 20% da superfície da Terra produz 80% de sua riqueza mineral.
  • Menos do que 20% das espécies causam mais de 80% da degradação ecológica. Estima-se que apenas uma espécie entre os 30 milhões existentes – isto é, 0,00000003% – é responsável por 40% do dano. Você consegue imaginar qual espécie estou falando?
  • Uma porcentagem muito pequena dos meteoritos que caem na Terra provoca mais de 80% dos estragos.
  • Menos de 20% das guerras produzem mais de 80% das vítimas.
  • No Alasca, a maioria dos filhotes de foca morre bem jovem – 80% dos sobreviventes são de 20% das mães.
  • Onde quer que você esteja, menos de 20% das nuvens darão origem a 80% das chuvas.
  • Menos de 20% de todas as músicas são tocadas mais de 80% do tempo.
  • Na maioria dos museus de arte, menos de 20% dos tesouros dos acervos permanecem em exibição mais de 80% do tempo.
  • Menos de 20% das invenções exercem mais de 80% de impacto em nossa vida. No século XX, a energia nuclear e o computador tiveram, provavelmente, maior influência do que milhares de outras criações e novas tecnologias.
  • Mais de 80% dos alimentos têm origem em menos de 20% da terra. Além disso, a fruta costuma corresponder a muito menos de 20% da massa ou do peso da árvore.
  • As bebidas também são uma demonstração extrema do Princípio 80/20. O que torna a Coca-Cola tão mais valiosa do que qualquer outro refrigerante do planeta? A fórmula sagrada para pequenas quantidades de um concentrado que, misturado a grandes volumes de água, produz a “Coca”. Ou o que há na cerveja que distingue as marcas dessa bebida uma das outras? Proporções minúsculas de lúpulo e outros sabores.

O Princípio 80/20 pode ser aplicado a tudo na vida. Isso é surpreendente e até espantoso.
Não é o que esperamos. Há um grande desequilíbrio entre causas e efeitos.

 A maioria das causas produz um pequeno número de resultados, enquanto umas poucas causas transformam a vida.

Qualquer um pode aprimorar a própria vida usando o Princípio 80/20 no dia a dia, com o objetivo de diminuir o esforço e as preocupações e aumentar a felicidade e os resultados desejados. Empregamos esse estilo para seguir o padrão do universo e alcançar efeitos melhores com mais facilidade. Quando fazermos isso, outras pessoas também saem ganhando.

Muitas pessoas descobriram que o Princípio 80/20 pode exercer uma enorme influência não apenas na economia e na sociedade como também na vida pessoal. Ele é capaz de nos proporcionar felicidade, realização e tranquilidade. Começamos produzindo mais com menos…

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Marcelo Scarpitta
CEO – MS Learning System Co.
www.marceloscarpitta.com.br

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